A Transição para a Medicina Estética e o Papel do Médico na Era da Inteligência Artificial

Eu não gostaria de ingressar na medicina hoje. Posso soar dissonante, uma vez que rotineiramente falo de propósito ao me referir ao meu ofício… Mas o “sofrimento” de hoje é diferente. O paciente chega com o diagnóstico do Dr. Google e a conduta do Dr. ChatGPT, querendo de nós apenas o carimbo. Como chegamos a este nível de comoditização da medicina? Explico a partir da minha própria rota.

Uma versão desta reflexão foi publicada originalmente na minha Newsletter do LinkedIn.

Eu não gostaria de ingressar na medicina hoje. Posso soar dissonante, uma vez que rotineiramente falo de propósito ao me referir ao meu ofício… Mas o “sofrimento” de hoje é diferente. O paciente chega com o diagnóstico do Dr. Google e a conduta do Dr. ChatGPT, querendo de nós apenas o carimbo. Como chegamos a este nível de comoditização da medicina? Explico a partir da minha própria rota.

Cresci no Brasil, um país emergente e desigual, onde quem pode pagar escolas boas tem uma enorme vantagem para chegar às faculdades mais disputadas. Eu quase cursei medicina nos EUA mas, por uma crise de “homesickness”, voltei ao Brasil a tempo de pegar o vestibular sem ter que fazer cursinho. Eu sentia uma espécie de “chamado” pra vivenciar mais da minha cultura antes de tomar uma decisão definitiva fora do meu país.

Me dediquei arduamente pra passar na prova, e o mindset era que seria “natural” que eu passasse e entrasse na faculdade, porém eu entendia que tudo viria mediante muito esforço.

Eu já vinha desde a faculdade fazendo estágios e plantões não remunerados em troca de aprendizado (o que é de praxe no Brasil), o que percebo como uma experiência muito valiosa, tanto que nos formamos médicos completos muito mais precocemente que em outros países. E com uma bagagem rica de manejo de situações emergenciais, afinal, não é corriqueiro que se aprenda a tratar pacientes que chegam após um tiro de fuzil, pessoas trans agredidas com frequência, com facas ou cacos de vidro cravados no corpo, e sobreviventes de tiroteios diversos.

O esforço esteve presente em cada etapa da minha formação, seja nos plantões em diversos hospitais (na loucura do Rio de Janeiro), em UTIs móveis, seja nas clínicas, de todos os tamanhos e perfis de pacientes. E em muitos serviços onde trabalhei, tendo que dirigir até a periferia em zonas de risco, eu nem sequer fui paga pelo meu trabalho. Ainda hoje, vários empregadores no RJ atrasam ou simplesmente deixam de pagar os médicos.

Em outros, eu seguia tratando como voluntária, mesmo tendo dedicado 5 anos de trabalho sem remuneração como estagiária de emergência e de dermatologia. Perdi a conta de quantas vezes tive medo de ser assassinada, seja quando tinha que atravessar uma favela perigosa, ou mesmo saindo do plantão de madrugada, em área de risco, ou até com pacientes criminosos que nos desafiavam em pleno atendimento.

Eu entendo bem quando dizem “Hell de Janeiro”… Been there, done that… Por que continuei lá? Porque, ainda assim, eu tinha a praia, as pessoas e as experiências maravilhosas ao meu redor que me nutriam de tudo aquilo que eu precisava, quando a doação e o esforço me drenavam a energia.

Dermatologia estética/ Cosmiatria/ Medicina Estética: quando expandir a carreira era um tabu

Ainda na faculdade, fiz estágio em dois serviços diametralmente opostos de dermatologia: o da Fiocruz, no entorno da favela de Manguinhos, uma área de extrema carência e muitas doenças ligadas à subnutrição e à falta de esgoto; e o da Santa Casa de Misericórdia, onde começava a se esboçar o primeiro ambulatório de cosmiatria da rede pública do país.

Fui aluna do Prof. Azulay e amava o serviço, assim como o do Prof. Ziadir Coutinho, na Fiocruz. Experiências tão diversas me deram a expertise em prescrição manipulada individualizada, para qualquer tipo de paciente. Nunca fui a médica “copia e cola” que vi em absolutamente todos os lugares onde trabalhei. Meu primeiro emprego de dermatologia era um lugar onde minhas fórmulas não eram sequer cogitadas: O importante era atender em “volume”, e meramente copiar e colar.

Ou melhor, só colar os stickers prontos com fórmulas para “cada questão de pele”, como se todos tivessem acne/ rosácea/ alopecia etc no mesmo grau, no mesmo tipo de pele, sensível ou não, étnica ou não, enfim…

No ambulatório da Santa Casa, se percebia uma medicina pública mais favorecida, praticamente elitizada e que aceitava se cuidar, ficar mais belo(a) sem que parecesse inapropriado. Aliás, os pacientes amavam estar num serviço público e ter acesso a opções de tratamento estético, uma novidade, na época.

Ali, no berço da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), mesmo diante de olhares entreabertos e preconceituosos de colegas e docentes mais conservadores, que não viam a cosmiatria (dermatologia estética) como “medicina”, tínhamos que esconder que fazíamos cursos de estética para não arrumar desavença com professores.

E meus antecessores em estética, como a Dra. Lígia Kogos, só puderam desbravar neste cenário nada amistoso indo para fora do país estudar estética médica. Realmente foi preciso “desmatar” uma verdadeira relva de indignados.

Hoje chega a ser risível algo que, na época, era tenso. Imagina se hoje, com toda a tecnologia e os avanços galopantes da medicina, teríamos condições de “rejeitar” qualquer avanço, em qualquer direção que fosse, de uma especialidade… Estaríamos simplesmente fora do mercado e ainda seríamos taxados de ultrapassados.

A evolução da Cosmiatria e o domínio de novas tecnologias

Vejam como a dermatologia se reapropriou de terapêuticas sistêmicas e integradas. O manejo da dor, o mapeamento facial e a ultrassonografia dermatológica viraram rotina de alto valor agregado. Indispensável mencionar a expansão para a dermatologia regenerativa e a gestão avançada de intercorrências.

Não é mais “permitido proibir” avanços. O médico que hoje domina a anatomia ecoguiada é o mesmo que, no passado, precisava estudar escondido para se diferenciar. Não sei se a realidade dos hospitais brasileiros continua tão caótica, insalubre e intensa como nos meus dias de recém-formada, mas pelo menos aquele sofrimento da perseguição dos catedráticos, os de hoje não devem sentir.

O lugar do médico na era do “Dr. ChatGPT”

O meu sofrimento era o da falta: de pagamento, de segurança, de aceitação. O de hoje é o do excesso, do overload. E sei que a maioria dos médicos se identifica comigo nesta questão.

Por outro lado, o mundo agora nos pede para ser “mais de um tudo”: gestor, coach, influenciador, o próprio publicizer. “Seja um pouco de tudo se quiser continuar sendo apenas… médico”. Isso me incomoda, e não por ser contra a versatilidade (comecei escondendo cursos de estética dos meus professores e culminei sendo professora de um deles). Uma coisa é ser polímata com maestria, como no Renascimento. Outra é ser superficial em tudo para sobreviver.

Hoje a paciente chega com o diagnóstico do Dr. Google e a conduta do Dr. ChatGPT, querendo de nós, elementarmente, apenas o carimbo. E eu me pergunto: qual é o lugar do médico, afinal?

Acho que está no que não cabe num prompt: o olhar demorado sobre cada caso, o raciocínio crítico e embasado, o poder de decisão e a responsabilidade de assinar embaixo. Defendo cada avanço, e a tecnologia vem para ampliar tudo isso. Mas não é ela quem vai olhar nos olhos de quem espera uma resposta… E dar a carimbada final. Nem é ela quem vai agir com a expertise real, com a responsabilidade e a ética hipocráticas.

A responsabilidade que nenhum algoritmo substitui

Se me perguntarem de novo se ingressaria na medicina hoje, hesito. Mas sigo aqui. Atendo quatro gerações da mesma família, e nenhum prompt sabe quem é o avô de quem, nem que o neto franze a testa igualzinho a ele, com o mesmo “encovamento” ósseo frontal, sem tirar nem por…

Tô errada na parte pessimista? Espero que sim. Acredito que, passada a euforia, as pessoas voltem a valorizar o médico que simplesmente o é.

Para fechar, recorro a Leonardo da Vinci e sua Madonna das Rochas. Ele desbravou novos tempos estudando anatomia em cadáveres—um tabu na época—para revolucionar sua arte. Este legendário italiano aprendeu e se destacou em várias áreas do conhecimento. O que você estuda hoje e parece um desafio às regras, pode ser exatamente o que vai te diferenciar amanhã.

E agora, a pergunta que não quer calar: o que você espera da IA na sua saúde, e em quem confiaria nos momentos mais delicados? Valendo uma receita escrita à mão (com letra ilegível), um calendário de laboratório de brinde e o cartão de consulta com o retorno marcado à caneta.

E você, qual nova habilidade está pronto para dominar nesta nova era da medicina? Essa discussão está acontecendo agora com outros colegas mentorados.

Clique aqui para ler o artigo completo e deixar a sua opinião no LinkedIn, onde colegas do mundo todo leem minhas newsletters em português e inglês da coluna Neorenascença Estética (Aesthetic Neorenaissance), onde discuto as novas fronteiras da expansão da cosmiatria, biohacking e performance, neurociência, psicossomática, self-improvement/ auto-conhecimento e tudo aquilo que todo polímata se nutre de…

Conhecimento! Se você é um deles, venha e lance o seu input.

Aliás, o INPUT é tudo que venho falando ultimamente, uma vez que traduz não apenas o que a gente é capaz de absorver de fora, porque somos “antenas” do campo energético ao nosso redor, como também somos capazes de mudar tudo o que queremos em nossa vida a partir do momento em que mudamos o nosso input, ou a forma como recebemos e, sobretudo, processamos, todos estes estímulos externos.

Mude o seu INPUT, mude sua vida. E se precisar de auxílio em sua carreira ou se você está com medo de tomar uma decisão importante em sua carreira, que implique em algumas perdas, conte comigo neste processo. Been there, done that…

Eu falhei e perdi muito para que pudesse chegar nesse degree (e “pedigree”) de ensinamento embasado para o meu aluno, para o meu mentorado.

Como speaker, KOL, medical advisor e board member de importantes instituições do mercado, eu possuo a expertise e a desenvoltura individualizada para guiar a sua carreira como eu gostaria de ter sido guiada: abreviando caminhos, otimizando resultados, aumentando lucros e reduzindo perdas, atraindo networking e conexões de autoridade e capacidade de expansão exponencial (e internacional).

E é exatamente para os médicos que não aceitam ser reduzidos a um “carimbador de condutas” que eu abro as portas da minha Mentoria Médica e dos meus treinamentos avançados. Se você quer se blindar no mercado e dominar as habilidades de alto valor que a inteligência artificial não pode replicar — como o manejo avançado de complicações, a anatomia aplicada (com imersão em cadáver lab) e a precisão exclusiva do método Brazilian Beautification, o seu próximo passo na sua carreira é ao meu lado.

Se você se espelha em algo da minha trajetória e gostaria de abreviar caminhos e aprender algo comigo e com os grandes que me mentoraram até aqui, entre em contato!

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Esta discussão sobre o papel do médico frente à inovação está acontecendo agora com outros colegas da nossa área. Clique aqui para participar e deixar sua opinião no post oficial do LinkedIn: https://www.linkedin.com/pulse/cruzei-duas-eras-diametralmente-opostas-na-medicina-o-rocha-md-msc-jlhkf/